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Amar

Florbela Espanca
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar...

Escrito por Tania às 21h32
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Commédia del Arte
Classificado no concurso Poemas no Ônibus,2008, da cidade de Esteio/RS

Tela: Arlequim, Pierrot e Colombina - Di Cavalcanti(1922)
(Tania Melo)
Tão só, no último banco,
o arlequim remendado
tem a roupa colorida,
em tons tristes, desbotados.
Sustenta as dores nas curvas,
disfarçando o amor que salta
do peito, descompassado.
Pois, sentados logo à frente,
vão, juntinhos, abraçados,
sua doce colombina
e o pierrô, apaixonados.

Escrito por Tania às 01h12
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Para sempre

(Carlos Drummond de Andrade)
Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho.

Escrito por Tania às 18h54
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Aún no estoy preparado

(Pablo Neruda)
Aún no estoy preparado para perderte.
No estoy preparado para que me dejes solo.
Aún no estoy preparado para crecer
y aceptar que es natural,
para reconocer que todo
tiene un principio y tiene un final.
Aún no estoy preparado para no tenerte
y solo recordarte...
Aún no estoy preparado para no poder oírte
o no poder hablarte,
No estoy preparado para que no me abraces
y para no poder abrazarte.
Aún te necesito
y aún no estoy preparado para caminar
por el mondo perguntandome por quê?
No estoy preparado hoy ni nunca lo estaré.
Te necesito

Escrito por Tania às 23h52
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Autopsicografia

Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
Escrito por Tania às 19h05
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Um período de férias...

Estarei ausente por alguns dias.
Carinho para todos que passarem por aqui.
Tania
Escrito por Tania às 13h33
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SINTO SAUDADES

Clarice Lispector
Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades.
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando n o futuro.
Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre.
Sinto saudades de coisas que tive e de outras que não tive mas quis muito ter! Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente como só os cães são capazes de fazer.
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar.
Sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade...
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que... não sei onde ... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi.
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em japonês, em russo, em italiano, em inglês ... mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria espontaneamente quando estamos desesperados... para contar dinheiro... fazer amor ...declarar sentimentos fortes ... seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples “I miss you” ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis!
De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência...

Escrito por Tania às 01h07
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2008 à vista, Capitão.

O nosso lindo Grumete éPablo,, (Barcelona/Espanha)
Veja comentário de seus pais junto aos demais
Grumete
Alberto Cohen
Capitão, meu capitão,
em que mar nosso veleiro
vai agora navegar?
Quem sabe por entre nuvens,
que são as ilhas do céu,
quem sabe nos muitos sonhos
que, transformados em tinta,
respingaram no papel.
Talvez em olhos perdidos
no horizonte de um voltar,
talvez pelas tempestades,
pelo vento e maresias,
que precedem calmarias,
naqueles que vão se amar.
Capitão, meu capitão,
em que porto, ribanceira,
fim do mundo ou corredeira,
vai nosso barco aportar?
Quem sabe dentro de quadros
que Van Gogh não pintou,
quem sabe depois da lua,
nas surpresas e esperanças
que um astronauta deixou.
Talvez num laço de fita
nos cabelos bem cuidados
de uma menina a brincar,
talvez numa palafita
de uma gente tão aflita
que não sabe mais sonhar.
Capitão, meu capitão!
Terra à vista, capitão!
Quem sabe é feita de rimas,
quem sabe é feita de versos,
talvez um novo universo,
talvez o nosso lugar.
Escrito por Tania às 14h52
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Retrato
(Cecília Meireles)
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
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Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?...
.
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Cecília Meireles
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Escrito por Tania às 23h40
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Escrito por Tania às 15h57
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Sonetos que não são

Hilda Hilst
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Escrito por Tania às 00h06
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NO SÉ...NO SÉ
Rosalia de Castro
Yo no sé lo que busco eternamente en la tierra, en el aire y en el cielo; yo no sé lo que busco, pero es algo que perdí no sé cuando y que no encuentro, aun cuando sueñe que invisible habita en todo cuanto toco y cuanto veo.
Felicidad, no he de volver a hallarte en la tierra, en el aire, ni en el cielo, ¡aun cuando sé que existes y no eres un vano sueño

Escrito por Tania às 22h53
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Isto é virtual?

foto de Igor Alecsander no Flickr
Rosa Pena
Entro apressada e com muita fome na confeitaria. Escolho uma mesa bem
afastada do movimento, pois quero aproveitar a folga para comer e passar um e-mail
urgente para meu editor. Peço uma porção de fritas, um sanduíche de rosbife e um suco de laranja. Abro o laptop. Levo um susto com aquela voz baixinha atrás de mim. — Tia, dá um trocado? — Não tenho, menino. — Só uma moedinha para comprar um pão. — Está bem, compro um para você. Minha caixa de entrada está lotada de e-mails. Fico distraída vendo as poesias,
as formatações lindas. Ah! Essa música me leva a Londres. — Tia, pede para colocar margarina e queijo também. Percebo que o menino tinha ficado ali. — Ok, vou pedir, mas depois me deixa trabalhar. Estou ocupadíssima. Chega minha refeição e junto com ela meu constrangimento. Faço o pedido do guri, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto
“ir à luta”.
Meus resquícios de consciência me impedem de dizer sim. Digo que está tudo bem, que o deixe ficar e traga o pedido do menino. — Tia, você tem internet? — Tenho sim, essencial ao mundo de hoje. — O que é internet? — É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas,
conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar. Tem de tudo no mundo virtual. — E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, na certeza de que ele pouco vai entender e
vai me liberar para comer minha deliciosa refeição, sem culpas. — Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que
criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer, criamos nossas fantasias,
transformamos o mundo em quase como queríamos que ele fosse. — Legal isso. Adoro! — Menino, você entendeu o que é virtual? — Sim, também vivo neste mundo virtual. — Nossa! Você tem computador? — Não, mas meu mundo também é desse jeito... virtual. Minha mãe trabalha, fica o dia todo fora, só chega muito tarde, quase não a vejo.
Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que chora de fome e eu dou água para ele
imaginar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo,
mas não entendo, pois ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito
tempo, mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos
brinquedos, ceia de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia. Isso é virtual, não é tia?

Escrito por Tania às 10h09
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Timoratos

Tania Melo
Por ser coisa, assim, tão simples riem-se os outros de mim. Mas eu sinto um grande medo de chamar-te, ou algo assim. Talvez, quem sabe, um fonema, um murmúrio, um soluçar, uma palavra pequena, um gesto, um riso, um olhar. Ao invés disso, me escondo na noite que sobrevém. Não me vês, nem eu te escuto, tu vestes negro, também. Assim, enquanto tememos, pequenos, surdos, tão sós, os dois, no escuro, não vemos, a vida passar por nós.

Escrito por Tania às 16h07
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"A Busca do Tempo Anterior”
(Canto III: modo antico, adagio lamentoso).

Ilton Carlos Dellandréa
Amarga é a saudade de quem espera reencontrar
quem nunca encontrou!
Sou eu a revisitar a quem nunca visitei ,
a quem esqueci de esquecer e me esqueceu,
alguém que eu não perdi mas nunca achei .
Sou eu a recantar uma canção que nunca cantei ,
a reescrever este verso que nunca escrevi ,
a dialogar com fantasmas que exorcizei...
...a abraçar um vazio pleno de ti...
(Ah! que equação irracional
a despedida assim, sem se despedir:
partir sem sair do lugar;
ficar, e ao mesmo tempo, partir).
Saíste da minha vida sem sair
que nem sei como algum dia voltarás.
Busco em mim e só encontro a ti
a mim procuro e não encontro nada
(não sei aonde foi que me perdi).
Talvez um dia eu encontre em ti
fragmentos da minha alma espedaçada!

Escrito por Tania às 13h49
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